terça-feira, 4 de agosto de 2009

Madame Bovary

RESUMO DA OBRA

Carlos Bovary é um menino tímido e acanhado, superprotegido pela mãe e indiferente perante o pai. Entra para o colégio por iniciativa materna. Crescido, ingressa para a universidade, onde depois de muito esforço, torna-se médico. A mãe preocupada com seu destino, arruma-lhe um emprego em Tostes e um casamento com a Sra. Heloísa Dubuc, viúva de um oficial de justiça, mais velha que Carlos, mas possuidora de um bom rendimento financeiro. Casado, Carlos vive sob o domínio da esposa que é extremamente sufocadora e mandona. Uma noite recebe um chamado para atender uma vítima de fratura na residência dos Bertaux, que distava 6 léguas de Tostes. Lá atende o Sr. Rouault, chefe da casa, viúvo, e conhece Ema, uma moça extremamente bela e encantadora. Fascinado pela moça faz visitas constantes à família, sob pretexto de acompanhar a recuperação do paciente. Sua esposa enciumada, após tomar conhecimento de Ema, proíbe-o de retornar à casa dos Bertaux. Carlos resignado em tudo obedece a esposa e afasta-se deles. Pouco tempo depois, acometida de um mal súbito, Heloísa morre.
Uma manhã, depois de cinco meses, o Sr. Rouault em uma visita de pagamento a Carlos, convida-o para que passe alguns dias em sua propriedade, a fim de, superar a perda da esposa. Carlos vai e fica três dias, em que, com um empurrão do Sr. Rouault, toma a mão de Ema em casamento. Depois de acertados os preparativos todos, Carlos e Ema casam-se e vão viver em Tostes.
Os primeiros meses do casamento pareciam agradáveis, mas com o decorrer dos dias, Ema percebe a falta de iniciativa e ambição do marido e começa a desgostar-se e frustra-se com o casamento. Ema fora uma moça criada em convento, onde seu único prazer e distração, era a leitura dos romances, os quais desejava ardentemente viver. Imaginou que com o casamento, encontraria este mundo encantado das histórias dos romances.
Após um convite para participar de um baile na propriedade do Marquês d'Andervilliers, em Vaubyessard, ficando encantada e deslumbrada com aquele mundo tão próximo dos livros e tão distante do seu, Ema começa a desejar desesperadamente que sua vida tome um rumo diferente do atual. Insatisfeita com a antiga empregada de Carlos, Nastásia, Ema a despede e contrata a jovem Felicidade. Começa a ter problemas nervosos, ataques e desmaios. Preocupado com a saúde da mulher, Carlos é aconselhado a mudar de cidade. Descobre-se que Ema está grávida. Tudo resolvido, vão morar em Yonville, uma localidade próxima de Ruão, onde Carlos e Ema conhecem diversas pessoas, entre elas, a Sr. Lefrançois (a estalajadeira), o Sr. Homais (o farmacêutico), o abade Bournisien, Sr. Binet, Sr. L'Heureux (o agiota e comerciante), e o jovem rapaz, Léon.
Desfrutando de uma maior liberdade, Ema continua a sentir-se infeliz, fato que Carlos é incapaz de discernir. Após dar a luz à Berta, Ema percebe que Léon está apaixonado por ela, e embora corresponda a esse sentimento, afasta o rapaz de si. Desiludido, Léon parte para Paris. Ema entra num estado de profunda tristeza e insatisfação, até que conhece Rodolfo, um homem de belo porte, elegante e sem caráter algum. Este aproxima-se de Ema para seduzi-la e torná-la mais uma entre suas muitas amantes. Ema entrega-se a essa aventura, vivendo-a intensamente. Os dois amantes encontram-se escondidos, quase que diariamente, até que Ema, sentindo-se culpada, põe fim ao relacionamento.
Carlos é convencido por Homais, com o auxílio de Ema, a fazer uma aparentemente simples cirurgia em Hipólito, um rapaz manco. A cirurgia é mão sucedida, trazendo a amputação da perna do rapaz. Ema, profundamente decepcionada com o marido, entrega-se novamente aos braços de Rodolfo. Ema começa a contrair dívidas, e assinar promissórias de L'Heureux. Ema e Rodolfo planejam fugir, e na véspera da fuga, ela recebe uma carta, onde Rodolfo declarara-se vítima da fatalidade e revelando que não fugirá com ela.
Após o fato, Ema entra em um processo depressivo, ficando muito tempo doente, tendo o marido sempre a sua cabeceira. Como Carlos não trabalha para poder ficar junto da mulher, toma dinheiro emprestado de L'Heureux, para pagar com juros. Seguindo os conselhos de Homais, Carlos leva-a para assistir uma ópera em Ruão, e reencontram Léon, já passados dois anos desde sua partida. Carlos é obrigado a retornar no dia seguinte para Yonville, mas deixa Ema, para que esta possa assistir a segunda apresentação da ópera. Ema , entrega-se a Léon, vivendo os dois, uma intensa paixão.
Durante muito tempo, Ema e Léon correspondem-se e encontram-se sob o pretexto de Ema tomar lições de piano. Num desse retornos, Ema descobre que suas dívidas estão sendo protestadas. Seus bens são avaliados e ela em desespero, procura uma solução. Tenta pedir dinheiro emprestado a Léon, mas este não o consegue. Vai em busca de Rodolfo, que diz não possuir mais dinheiro. Ema desesperada e já transtornada, vai até a farmácia de Homais e envenena-se com arsênico. Retorna para casa e depois de muito agonizar, despede-se da filha e morre.
Carlos muito abalado com a morte da esposa, não consegue seguir adiante com sua vida. Descobre todas as cartas que comprovam os casos de sua mulher com Léon e Rodolfo, mas não lhe imputa culpa alguma e nem sente raiva ou ódio pelos outros dois. Por fim, Berta ao ir para o jardim, chamar o pai para brincar consigo, dá com ele morto.
Depois de que tudo na casa é vendido, reunem uma pequena quantia que sobrou da dívida e enviam a menina para viver com a avó. Esta morre no mesmo ano, e como o avô, o Sr. Rouault está paralítico, vai viver com uma tia pobre que lhe arruma emprego em uma tecelagem, para ganhar dinheiro.



MICROANÁLISE

ENREDO

O enredo divide-se da seguinte forma:

APRESENTAÇÃO: O narrador apresenta Carlos Bovary ainda na infância, contando sua criação, a história de seus pais, sua entrada para o colégio e universidade, seu primeiro casamento com a Sra. Dubuc, sua consequente viuvez, encontro e casamento com Ema.

COMPLICAÇÃO: Inicia-se logo após o casamento de Carlos e Ema, a insatisfação e desilusão da moça, sua gravidez e mudança de Tostes para Yonville, onde conhece seus amantes e vive intensamente suas paixões e amores.

CLÍMAX: Quando Ema toma conhecimento das dívidas protestadas, caindo em desespero, procurando freneticamente uma solução que culminará com seu auto-envenenamento e morte.

CONCLUSÃO: Após a morte de Ema, quando Carlos toma conhecimento das aventuras da esposa, a morte do mesmo e o destino nada romântico de Berta.


FOCO NARRATIVO

No início temos um FOCO NARRATIVO INTERNO, com um NARRADOR TESTEMUNHA, que presencia de forma pessoal os eventos referentes a entrada e permanência de Carlos Bovary no colégio, sob o signo de um “NÓS” na narrativa.
No desenrolar desse primeiro momento, este narrador vai diluindo-se até o foco tornar-se um FOCO NARRATIVO EXTERNO, e revelar um NARRADOR ONISCIENTE na terceira pessoa, com poder de sondar mentes e antever ações. Este foco narrativo circundará pelos vários personagens, indicando uma multiplicidade na narração, dando ao texto o ritmo e a velocidade das ações. O narrador em alguns momentos revelará uma objetividade reflexiva sem interferir ou romper a estrutura narrativa.


TEMPO

DA NARRATIVA: é predominantemente cronológico, mas possui momentos em que a narrativa exige um tempo psicológico, representado pelos conflitos de Ema.

DA NARRAÇÃO: segue uma ordem linear, com alguns flash-backs para contar a história dos pais de Carlos e a adolescência de Ema no convento. Segue a cronologia habitual, partindo do início mais remoto do passado (a infância de Carlos) até o futuro mais distante (o destino de Berta).


ESPAÇO

Os espaços na obra são bem distintos:

FÍSICO: Temos as localidades de Tostes, Ruão, Vaubyessard, Yonville, Paris, o colégio, o convento e o campo. São na maioria espaços urbanos, com exceção do campo onde Ema vivia.

SOCIAL: Transitam entre a burguesia, os camponeses e os de posição aristocrática. Esses espaços exercem influência sobre os personagens e determinam seus comportamentos.


PERSONAGENS

EMA BOVARY – É a protagonista (ou heroína) do romance. Uma personagem que transita entre o idealismo romântico e a temática realista. Nasceu e viveu no campo, era simples, porém com modos de um membro da aristocracia. Após o casamento, tornou-se geniosa, frustrada, sedenta por romance, aventuras, tudo aquilo que fosse o oposto de sua vida tediosa e sem perspectiva ao lado do marido. Seu nome significa “universal”, o que a torna uma personagem amplo, livre de qualquer estereótipo ou idealização. É uma personagem evolutiva, pois em toda a trama, vai crescendo e modificando-se.

CARLOS BOVARY – É o antagonista, pois se opõe a todos os ideais de Ema, mesmo que não tenha conhecimento disso. É uma personagem apática. Desde o início sofre com sua falta de iniciativa e de controle de sua própria vida. É acomodado e conformado com tudo, não percebendo o que acontece a sua volta. Casado com Ema, faz com que essa sinta-se infeliz no casamento, sem suspeitar que isso ocorra. Tem uma visão extremamente romântica e idealizada da mulher. Seu nome significa “homem viril”, o que demonstra uma antítese do autor, ao criar esse personagem, que não demonstra qualquer tipo de virilidade. É uma personagem estática, não sofre qualquer tipo de alteração na trama. Representa o espírito romântico já decadente.

BERTA BOVARY – É filha do casal, Ema e Carlos. Aparentemente no meio da trama demonstra ser uma personagem secundária, mas no desfecho revela-se como extensão protagonizadora de Ema, já que é nela que se reflete todo o resultado da narrativa. É a concretização realista de toda a trama. É por consequência uma personagem evolutiva, pois seu futuro demonstra-se oposto a qualquer tipo de previsão. Seu nome significa “gloriosa, determinada, brilhante”.

SRA. BOVARY (mãe de Carlos) – Personagem secundária, antigamente doce e jovial, mas após casar e envelhecer torna-se amarga, superprotetora para com o filho, econômica, religiosa, mal-humorada, nervosa, resmungona e extremamente tradicional. Com a incapacidade do marido de exercer sua função de chefe de família, assume a direção da casa e o controle da vida do filho, até este casar-se com Ema. Representa a resistência o espírito tradicionalista suprimido pela ascensão da nova burguesia. É uma personagem estática, não tendo qualquer tipo de mudança que interfira na trama.

CARLOS DINIZ BARTOLOMEU BOVARY (pai de Carlos) – Personagem secundária. Homem de bos presença, bem-falante, boêmio e um tanto descuidado com suas responsabilidades conjugais e familiares. É gastador e aventureiro. Representa o antigo código da nobreza, que ainda que não possuísse nada, aparentava ter tudo. É uma personagem estática.

SR. ROUAULT (pai de Ema) – Personagem secundária. É um homem do campo, abastado, mas sem muito tato para os negócios. Espirituoso e um tanto avaro, vê em Carlos a oportunidade de “livrar-se” da filha sem ter de lançar mão de um alto dote. Representa em si a esfera do campo, ameaçada pelo avanço tecnológico e capitalista. É uma personagem estática.

SRA. HELOÍSA DUBUC (1ª esposa de Carlos) – Personagem secundária. Viúva de um oficial de justiça, com 45 anos, une-se matrimonialmente com Carlos, graças a um arranjo da mãe dele. É uma mulher insegura e mandona. Está falida, mas consegue esconder isso de todos. Representa o antigo regime dos casamentos por conveniência. É uma personagem estática.

NASTÁSIA – Personagem secundária, é a primeira criada de Carlos, demitida por Ema. Submissa e prestativa, quando resolve reagir, é despedida. Representa os antigos costumes, e a antiga classe de serviçais, anterior as transformações da Revolução Industrial. É uma personagem estática.

FELICIDADE – Personagem secundária, é a nova criada de Ema. É jovem e alegre, um tanto imatura. Representa o início da nova fase da vida de Ema, e é uma metáfora do sentimento de busca de felicidade da mesma. É uma personagem estática.

SR. HOMAIS (o farmacêutico) – Personagem secundária. É interesseiro, dissimulado, oportunista, falante e dado a conhecer tudo. Vale-se de seu tom filosófico e sua crença na ciência. Torna-se amigo íntimo de Carlos e Ema, aproximando as famílias. Tira proveito da presença de Carlos, por ser médico, para benefício próprio, já que não pode ocupar a posição do tal. Vale-se muitas vezes de escrever artigos no Farol de Ruão para garantir um certo status e privilégios. Quando Carlos cai em ruína, afasta seus filhos do convívio com Berta. É uma personagem que personifica características idealistas por ser anti-clerical, e ter uma fé científica. Representa esse processo de confrontação e expansão do ponto de vista realista. É uma personagem estática.

SR. BINET – Personagem secundária. É um ex-carabineiro que se distrae em seu torno ou caçando. É pontual e exigente. Representa o militarismo decadente. Personagem estática.

SRA. LEFRANÇOIS – Personagem secundária, é uma estalajadeira antiga. Cordial e prestativa, representa a velha burguesia oprimida pelo avanço do “novo”. Personagem estática.

SR. L'HEUREUX – Personagem secundária. É um comerciante de artigos diversificados e agiota. Ambicioso, aproveitador, interesseiro e muito esperto. Exerce grande influência sobre Ema, aproveitando-se de seu gosto por adquirir coisas. Representa a nova burguesia em ascensão e personifica em si o espírito capitalista. Personagem estática.

LÉON – Personagem secundária. Em um primeiro momento é romântico e puro. Nutre um amor secreto por Ema, o qual não consegue revelar. Em um segundo momento, quando está em Ruão, mostra-se mais maduro e sensato, determinado a não deixar escapar a oportunidade de viver um grande romance com Ema. Léon também é um personagem que transita entre o Romantismo e o Realismo. Seu nome deriva de Léo, e indica “pessoa determinada, corajosa e ousada”. É uma personagem evolutiva.

RODOLFO – Personagem secundária. Seu nome vem de “lobo famoso”. Exímio sedutor, de bom porte e elegância. Habilidoso com as palavras e uma mente bem criativa, consegue enlaçar Ema em seus galanteios e torná-la seu objeto de prazer. Quando sentiu que não precisava mais dos amores dela, a descarta. Rodolfo representa a verdadeira face do romance realista, ao descrever de maneira pessimista, como o amor pode ser pernicioso neste novo momento da sociedade. É uma personagem estática.

ABADE BOURNISIEN – Personagem secundária. É o representante religioso de Yonville, mais preocupado em “catequizar” crianças e torná-las novos cristãos, do que atender as necessidades espirituais de seus paroquianos. Homem sem muita visão e de pouca percepção. Na trama representa a presença do clero e da religião, como algo que prende pessoas em dogmas e preceitos. Personagem estática.

JUSTINO – Personagem secundária. É funcionário de Homais, tratado com pouca cortesia e consideração. É jovem, discreto e um tanto resignado aos maus-tratos de seu patrão. O interessante é que este talvez seja o personagem que mais surpreenda-nos no desfecho da obra. Durante toda a trama ele passa despercebidamente, sem demonstrar grandes ações. O autor dá-nos a entender que ele talvez goste de Felicidade, mas no dia do sepultamento de Ema, somos surpreendidos com sua figura sobre o túmulo, chorando um amor nunca revelado ou percebido. A única pista anterior que temos a esse amor, é o cuidado com que ele limpa as botas de Ema. Justino representa o espírito ainda resistente do Romantismo puro e desinteressado. É uma personagem evolutiva.

CEGO – Personagem secundária. Esta estranha figura aparece repentinamente na trama. É um cego que vive da mendicância e que possui algumas deformidades na face. É uma personagem tipicamente shakespeariana. Na trama ele representa a manifestação subconsciente do estado emocional de Ema, tanto que esta no momento de sua morte, ouve-o cantando: “Muitas vezes, dum belo dia de calor / Faz que as moças sonhem com o amor...” . Esta canção reflete toda a trajetória de Ema em sua busca do amor verdadeiro. Obviamente este cego atuará em dois planos distintos: no plano metafísico, quando relacionado à Ema, e um plano físico relacionado a Homais, que consegue-lhe um fim nada agradável. É uma personagem híbrida; estática sob uma esfera de análise, e evolutiva sob outra esfera.


MACROANÁLISE

Tomando como ponto de partida todos os princípios já analisados na microanálise, e tendo como base os pressupostos teóricos já desenvolvidos, partiremos, assim, para análise da obra como um todo.
Sendo o autor, Gustave Flaubert, um escritor em sua essência, romântico, ao entrar nessa nova esfera realista da investigação do subconsciente humano e da sociedade, produz uma obra completamente densa de análise e reflexão. Constroe uma obra literária que personifica o olhar de insatisfação, de uma ótica realista, contra os dois pilares fundamentais da sociedade: o casamento e a religião.
Em Madame Bovary, toda a trama circunda seus dois principais personagens: Carlos e Ema. Estuda toda essa composição disforme, até então oculta ao olhar crítico. Temos uma personagem que vive à margem de toda ação, apenas aceitando de forma branda a todo o contexto de vida que lhe foi imposto, primeiro pelos pais, depois pela esposa, e mais adiante pelo determinismo do destino. De outro lado temos uma personagem que não se conforma com toda essa construção arbitrária de uma sociedade que impõe a mulher um papel secundário, privando-a de suas escolhas e de assumir as rédeas de seu próprio destino; uma personagem que busca alcançar, mesmo que de modo reacionário, a satisfação de seus dias, o orgulho de sua condição de mulher, mãe e amante. Assim, Carlos é o reverso de Ema.
Temos uma obra fundamentada em duas personagens que geram uma antítese em sua própria união, vivendo em planos de compreensão tão diferentes que, ao invés de criarem um choque em todo o processo narrativo, fragmentando e diluindo a força e constância da trama, geram um ponto de junção ou fusão tão homogêneo que impactam o leitor já em um primeiro momento.
Percebemos que o romance é o espelhamento de sua heroína. No início têm-se a falsa impressão de que será mais uma história ambientada no ideário romântico, mas a narrativa vai crescendo e evoluindo tanto que, deparamo-nos com uma faceta realista, assim como a própria heroína que sofre essa mesma transição, partindo do remoto ponto romântico até atingir o excelente nível realista. Isso não ocorre por acaso, ou por simples manifestação da inspiração do artista que o compõe, mas é a elaboração engenhosa de uma mente também já gasta por toda a subjetividade vazia de um romantismo decadente.
A união de duas personagens tão destoantes, revelará o comportamento de uma sociedade também destoante e ambígua. Quando Ema depara-se com um casamento frustrado e infrutífero, sente em seu íntimo a imensa vontade de desvencilhar-se desta situação. Porém, ela é mulher, e esse estigma marcado pela sociedade cria em seu interior o primeiro conflito de proporção letal aos seus sonhos. Ema saíra do campo e já habitava os romances. Quando chega ao pequeno burgo de Tostes vê-se enterrada em um mundo de mesmice e rotina. Ao adentrar a esfera encantadora dos salões e bailes, almeja igualar-se àquelas belas mulheres da alta aristocracia, algo do qual já estivera habituada nos romances que lera. Ao sair desse mundo de encantamento e magia, que somente o dinheiro e os títulos de nobreza podem garantir, Ema começa já a sofrer suas primeiras alterações.
Ema Bovary é uma personagem que sofre mutações na obra. No campo é apenas uma singela e frágil lagarta, que durante a trama fecha-se em um casulo de insatisfação e ressentimento, saindo dele em forma de colorida e doce borboleta, livre para voar e viver intensamente o frescor de sua primavera, antes que venham os fortes calores do verão, os tédios do outono e a infecundidade do inverno. No entanto Carlos continuará vivendo a ermo, sem rumo ou orientação capaz de colocá-lo na condição de chefe de família.
Aliás, algo nítido na obra é esse trabalho da inversão dos papéis bem interessante. Temos a amarga Sra. Bovary, que cansada da irresponsabilidade do marido, toma a direção da casa e assume o posto de chefe de família. E temos também a velha Sra. Dubuc, que insegura de seus atributos femininos, exerce cerrada posição autoritária com Carlos, seu marido. Temos também a imagem de um homem fraco e dominado, que primeiro sofre com os cuidados sufocadores da mãe, e o controle ferrenho da primeira esposa. Depois ao casar-se com Ema, Carlos torna-se refém de sua própria satisfação, não discernindo tudo o que acontece a sua volta.
O autor não trabalha com tipos caricaturais, mas cria personagens que personificam em seu “corpus literário”, todo um que de reflexão e projeção ideológica do momento e da crise moral da sociedade. Temos a figura nada cativante do clero na figura do Abade, e do confronto científico-filosófico do Farmacêutico. A velha Estalajadeira, que não possui o mesmo sucesso do judeu Agiota e Comerciante. São conflitos de ordem social, moral, religiosa, etc. O autor muito cuidadoso só não se envolve em questões políticas.
A presença dos dois amantes determinam momentos e comportamentos diferentes na vida de Ema. Com Rodolfo, Ema é intensa, voraz e inconseqüente. Aparenta mudar em seus modos, em sua maneira de vestir-se e no seu descontrole nos gastos. Com Léon é mais consciente, madura e menos inconseqüente, mas torna-se mais dissimulada e aprende o ofício da mentira. Ou seja, temos uma personagem camaleônica, que assume comportamentos de acordo com o momento que vive.
Outra coisa interessante de se notar, é a questão do tempo entrelaçado a Ema, pois quando a personagem está entediada ou frustrada, a narrativa adquire um ritmo mais lento, monótono. Mas quando ela assume comportamentos mais libertinos, a narrativa torna-se rápida e igualmente intensa. Então, deduzimos que, a personagem provoca esse balanço no ritmo e velocidade da narrativa, como forma de provocar no leitor, as mesmas sensações que incorporam a personagem.
Ema Bovary é a solidificação de todo um universo feminino, é uma personagem camaleônica e metamórfica, que dará origem a outras grandes heroínas, como por exemplo nossa Capitu de Machado de Assis, e que influenciará a criação de outras personagens tão paradoxais a esta, como Amélia e Lúcia de Eça de Queiroz.
Berta também é uma personagem, que embora não tenha grandes ações no decorrer da narrativa, revela um final um tanto intrigante. Órfã e pobre, vai parar de lugar em lugar até ter um destino certo: a casa de uma tia. Essa tia não aparece em toda a trama. Sabemos que Ema não possuía irmãos, tampouco Carlos, o que nos leva a deduzir, ser esta tia parenta distante da Sra. Bovary ou do Sr. Rouault. Tia pobre que assume a responsabilidade sobre uma garota órfã, encontra apenas um caminho: colocá-la para trabalhar em uma tecelagem para garantir o sustento de ambas. É mesmo algo interessante esse desfecho da personagem, dado pelo autor, já que a menina foi filha de uma camponesa ascendente e de um médico mediano. Herdeira direta de toda a propriedade de seu avô materno, vai viver justamente como operária em uma fábrica. Temos de forma indireta neste desfecho, a decadência do campo, a extinção da alta aristocracia, o avanço industrial e as constantes transformações científicas e médicas. Berta é de fato a última pedra fundamental que completa esse edifício da construção do estilo realista.

10 comentários:

  1. Muito Bom cara!
    Sua análise me ajudou no meu seminário sobre o livro!
    Obrigado!

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  2. NOSSA, obrigada pela ajuda! sou eternamente grata! haha

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  3. Vai me ajudar na prova.
    Sempre bom ler outras análises além da própria.
    Flw, cara, abraço, muito obrigado por postar seu trabalho.

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  4. muito bom mesmo adorei,me ajudou bastante muito obrigada...

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  5. Qual é o tipo de narrador do livro Madame Bovary?

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  6. Muito obrigada! Amanhã farei uma prova sobre essa obra e seu texto me ajudou bastante a entender como ela foi construída. ótimo site para os estudantes que não têm paciência pra ler esses livros antigos kk

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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