terça-feira, 4 de agosto de 2009

Retrato do artísta quando jovem, de James Joyce

O Retrato do Artista Quando Jovem narra as experiências do jovem Stephen Dedalus e termina com a recriação de seus ritos de passagem para a idade adulta, que incluíram deixar para trás a família, os amigos e a Irlanda para viver no continente.
Seus capítulos organizam-se mais por temas ou momentos específicos da vida do alter ego de Joyce, Stephen Dedalus.
O percurso exterior de Dedalus é relativamente simples e esquemático. O livro tem apenas cinco capítulos, que equivalem, cronologicamente à vida escolar de Stephen. O primeiro descreve sua infância de menino frágil; o segundo mostra-o entrando na adolescência e descobrindo o amor; no terceiro, esse amor transforma-se em luxúria e o adolescente entrega-se às prostitutas; no quarto, arrependido, o jovem debate-se entre uma suposta vocação sacerdotal e o chamado artístico; no quinto, todos os conflitos culminam em sua opção pelo exílio, afastando-se da família, da pátria e da religião, para entregar-se conscientemente aos apelos da sensualidade e da criação artística.


Microanálise

O romance Retrato do artista quando jovem é construído em torno das técnicas do fluxo de consciência.
Ao escrever o romance utilizando-se dessa técnica, James Joyce possibilita que o leitor penetre na mente de seus personagens de forma a acompanhar seus mais íntimos pensamentos descrevendo, dessa forma, as fases de sua vida: infância, adolescência e adulta.
A obra concentra-se nas características psicológicas e emocionais de seu protagonista Stephen Dedalus, nome este que revela o conflito entre a religião (pecado x santidade) e a arte, certos de que o nome Stephen corresponde a Estevão (primeiro mártir da igreja), e Dedalus corresponde ao mito grego de Dédalo.
É considerado um romance autobiográfico, pois o universo ficcional de Joyce concentra-se em Dublin, sua terra natal, refletindo toda a sua vida familiar, eventos, amizades e inimizades dos tempos de escola e da faculdade. Assim como o protagonista Dedalus, Joyce teve experiências com prostitutas na adolescência, e precisou lidar com questões de fé; foi o mais velho de dez irmãos e recebeu educação em escolas.
A ação do romance concentra-se nas reflexões, divagações e reações internas de Dedalus a episódios diversos (como diálogos e atitudes de outros personagens) ao longo do tempo.
Em relação ao tempo em que se passa a trama, embora seguido de uma cronologia natural, da infância à maturidade, o tempo do romance é um tempo interno ao personagem.
O espaço situa-se na própria Irlanda, alternando-se entre os colégios onde Stephen estudou e sua casa. Por se tratar de um romance precisamente psicológico, o espaço estará intimamente ligado às emoções e sensações do protagonista.
Quanto ao foco narrativo, ainda que narrado em terceira pessoa, o texto não abandona o ponto de vista interno de Stephen e isto explica toda a subjetividade da obra, um dos
principais complicadores para o seu entendimento pelo leitor moderno, acostumado com a leitura mais objetiva.
Para o maior entendimento da obra, devemos levar em consideração dois aspectos que estão intimamente ligados: o sentido do nome do protagonista e o uso da técnica do fluxo de consciência.


Stephen (Estevão)

Sua história está narrada na Bíblia, nos livro de Atos dos Apóstolos, capítulos 6 e 7.
Estevão era um dos sete diáconos da Igreja Primitiva, responsável pelo acompanhamento dos membros. Sua atuação parece ter sido entre os judeus helenísticos. Foi um grande pregador, conhecido por sua reputação, sabedoria, fé e devoção a Cristo. Demonstrou grande coragem ao defender sua fé diante dos líderes religiosos de sua época. Foi julgado pelo mesmo Concílio que crucificou Jesus e que pouco antes proibira os apóstolos de falarem em Jesus.
O discurso de Estevão perante o Concílio foi, em sua maior parte, um resumo interpretativo da História do Antigo Testamento, culminando numa repreensão mordaz, pelo fato de os judeus terem assassinado Jesus.
Estevão foi morto a pedradas em praça pública e tornou-se o primeiro mártir da igreja.


O Mito de Dédalo (Dedalus)

Dédalo é a personificação do espírito da arte. Seu nome em grego significa: engenhoso, hábil, criador. Contém, em história, toda a trajetória libertária da arte.
Dédalo era um escultor-arquiteto, um artesão e engenheiro. Vivia para criar obras que servissem para melhorar o trabalho dos cidadãos de seu tempo. Possuía uma oficina em
Atenas onde, ao lado de Talo, seu sobrinho e aprendiz, engendrava instrumentos preciosos como o mastro, a vela e o machado dos carpinteiros.
Nos primeiros anos, a vida de Dédalo é um generoso ato de descobrir os materiais, as formas, os volumes e o próprio espaço. Depois, sentindo-se suplantado pelo sobrinho, comete o crime que o condenaria à morte. A partir desse momento, o artista perde sua liberdade criadora. Vítima da fuga,deverá produzir apenas aquilo que lhe ordenam, dentro das necessidades dos Estados que o fazem prisioneiro.
A antiga busca de materiais novos (o emprego do mercúrio em peças de argila, por exemplo é atribuído à Dedalos. Ele teria usado tal elemento para “dar vida” as suas imagens) é substituída pelo trabalho projetado com fim político, determinado, limitado.
Uma vez em Creta, sobre o governo de Minos, Dédalo ilustra até as últimas conseqüências o mito da escravidão da arte: cria o labirinto de Cnossos, que deveria conter a fúria do Minotauro. Mais tarde, o arquiteto e seu filho Ícaro são atirados no labirinto: o objeto de arte aprisiona o artista quando não parte de sua necessidade fundamental de expressão.
O labirinto (presídio complexo, de ruas cruzadas e rios aparentemente sem embocadura) é a mente do gênio escravizado, que cria segundo às exigência de seus dominadores, abandonando o motivo básico de sua inspiração.
Ainda no labirinto que ele próprio construíra, Dédalo engendrara dois pares de asas (um para si, outro para o seu filho Ícaro) e ambos libertaram-se.
O sentido desse fato mítico é claríssimo: o homem se salva por meio da arte do trabalho. O Vôo de Dédalo corresponde também à imaginação, conduzindo para o infinito aquilo que antes estava encerrado dentro de um enigma, aparentemente indecifrável, representado pelo labirinto. Ícaro morre por aproximar-se do Sol, que derrete as ceras de suas asas, fazendo-o despencar no mar. Dédalo fez uso de asas para procurar a liberdade.
O fato é bastante significativo de um dos princípios fundamentais da arquitetura: a “conquista do espaço”, a luta contra a lei da gravidade que prende o homem ao solo.


Fluxo de Consciência

Do inglês “Stream of Conciousness” , o termo foi criado pelo psicólogo William James, apresentado em sua principal obra Princípios de Psicologia (1890). William James criou esse termo para demonstrar a continuidade dos processos mentais, que não se manifesta fragmentadamente, em pedaços sucessivos, mas num fluxo contínuo de pensamentos.
Fluxo de Consciência é uma técnica introduzida por James Joyce, em que o monólogo interior de um ou mais personagens é transcrito. Nessa técnica, a narrativa apresenta-se como um fluxo de consciência que intercepta presente e passado, quebrando os limites espaço-temporais. No fluxo de consciência há uma quebra da narrativa linear, onde já não é tão claro distinguir entre as lembranças dos personagens e a situação presentemente narrada. No Brasil, Clarice Lispector e Guimarães Rosa utilizaram-se dessa técnica.
Foi inicialmente formulado pelos escritores russos do século XIX, tais como Dostoievsky, Gogol, Tchecov, Tolstoi, entres outros, e consiste em explorar a temática psicológica, mas de modo tão profundo que toda a narrativa gira em torno dela.
James Joyce e Proust alcançam subterrâneos da mente, influenciados pelos avanços de Freud. É considerado uma das maiores descobertas literárias de todos os tempos. O cérebro é um labirinto misterioso e fantástico.


Macroanálise

Tendo em vista todas as partes já dispostas anteriormente e analisadas, podemos depreender a genialidade de Joyce ao utilizar-se de métodos tão modernos e complexos para criar uma obra tão completa em si mesma como manifestação de um novo estilo na literatura universal.
Comecemos pela frase inicial do livro, transcrita em latim da obra Metarmofoses de Ovídio: “Et ignotas omnium dimittit in artes” (e deixa cair em artes desconhecidas de todos), um convite para adentrar no mundo das artes ainda não descobertas, ares ainda não conquistados. Depois, passemos pela dicotomia gerada pelo nome do protagonista da obra, que revela a intensa luta entre um sentimento e desejo materno da vida sacerdotal, religiosa, e a imensa vontade de desprender-se de todas as convenções e dogmas para penetrar no imenso mundo das artes. Stephen vive uma grande evolução em seu espírito, desprendendo-se, libertando-se do labirinto familiar, religioso e convencional, para alçar vôo no vasto horizonte do mundo das artes, assim como Dédalo alçou vôo para libertar-se de sua prisão.
Em seguida temos um personagem completamente evolutivo, narrando-se a si mesmo, começando do ponto mais remoto de suas lembranças, ainda criança, passando pela infância, adolescência e fase adulta. Percebemos que a linguagem e a estrutura narrativa evoluem conjuntamente ao personagem, o que garante e condensa a unidade e diversidade da obra.
Não estamos falando de uma simples construção textual, alegorizada ou moralizante num sentido literário, mas de uma obra que conta com um enredo simples que torna-se rico e intenso, quando nos sentimos mergulhar no universo interior do personagem, participando de suas frustrações e decepções, seus conflitos, momentos íntimos e seus desejo de liberdade, uma busca incessante por encontrar-se e reconhecer-se como alguém no mundo das idéias.
A busca de Stephen é uma só: libertar-se de todo um meio pequeno e medíocre que o prende a uma realidade que não aceita, nem lhe interessa.
Na obra temos partes muito interessantes, como o sermão que apresenta um inferno de maneira bem científica, mostrando um fogo que não consome, mas queima e arde. Uma visão que desfaria toda percepção do inferno dantesco, uma verdadeira reorganização sensorial.
Temos também, de forma que assemelha-se à investigação científica, a exploração do universo psicológico do ser humano, suas reminiscências, lembranças íntimas, medos, anseios, amores e traumas.
Descobrimos um personagem tão brilhante, admirador de Byron, Black e Shelley, e que é capaz de discutir Aristóteles, Platão, São Tomás de Aquino. Criar e desenvolver teses próprias sobre o Belo, Estética, a Arte como um todo, fragmentada em suas partes mais significantes: forma, conteúdo, representação.
O ponto mais fascinante da narrativa é a epifania vivida por Stephen na praia, onde finalmente, depois de visualizar o homem voando como um falcão em direção ao sol, percebe qual a sua verdadeira vocação ou predestinação: ser artista. Em um misto de êxtase e fascinação, encontra-se finalmente, consigo mesmo: o Dédalo voando em busca da liberdade e da excelência da arte.
Por fim encerramos com o pedido final de Stephen, uma espécie de súplica ou oração, a um ser ou entidade que o guiou a toda essa trajetória de descoberta da arte: “Velho pai, velho artífice, mantém-me, agora e sempre em boa forma”.

3 comentários:

  1. Estou lendo este livro agora. Muito interessante ele.

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  2. Adorei a análise, me ajudou a dar inicio ao meu ensaio

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  3. Ótima análise, com ótimas representações sobre algumas significações pro autor. Valeu!

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